sábado, 4 de fevereiro de 2012

AMIGO É NÃO - escrito próprio


Amigos
Palavra de muitos significados
Incontáveis conotações

Ser amigo de uma mulher as vezes é tudo...
Mas as vezes é um muro intransponível
É bom, porém trás inevitáveis frustrações

Um coração que deseja ser mais que amigo
Sofre com a dualidade: amizade e paixão
Com a negação amiga às suas profundas intenções

Ser mais que amigo exige mais que o simples desejo
É necessário ser visto com outros olhos
Precisa da batida imponderável de dois corações

Assim, um simples amigo encontra-se na contra-mão
Sorri junto, chora sozinho, chora junto e sozinho não sorri
Está ali, como escudo mudo do seu amor, sem contestações

Ser só amigo é difícil, quando se quer um beijo
Ser só amigo é chato, quando se quer pegar na mão
Ser só amigo é complicado, quando se quer...

Ser só amigo, transforma a palavra amigo
Vira uma quase ofensa, uma quase agressão
Ser só amigo, transforma a palavra amigo, em não!

Alnary Filho

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

SEGREDOS, DESEJOS E POESIAS - escrito próprio



Os desejos do homem são seus segredos...

Os desejos do poeta são seus sinais para o mundo...

Os segredos do homem desejam ser descobertos...

Os segredos do poeta são publicados...


Para o poeta os desejos do homem são pueris...

Para o homem seus desejos vivem num lugar chamado medo...

Para o poeta é fácil escrever o seu amor...

Para o homem é insano falar do seu amor...


Os desejos do homem se traduzem nas várias mulheres que ama ou amou...

Os desejos do poeta se consomem em todas as mulheres da sua poesia...


Quando homem e poeta são o mesmo

Desejos e segredos se misturam...

O homem usa o poeta para superar seu medo...

O poeta usa o homem para se libertar...


Como homem e poeta

O amor me consome

O amor me liberta

O amor é segredo e desejo...


Como homem e poeta pretensioso

Meus segredos e desejos são...


Pornograficamente insanos por S...

Sexualmente amorosos por D...

Carinhosamente amigos por L...

Luxuriosamente fortes por M...

Eroticamente intensos por A...


No peito vazio do homem e do poeta

Tem um grito, uma vontade e uma verdade...


Os desejos e os segredos por elas são formas de amor

Amor que poderia se consolidar para sempre

Se durassem, poderiam acrescentar os demais componentes

Os componentes da receita perfeita da vida a dois...


Mas esse vazio também sabe

Que para as três primeiras não quer voltar...

Com M, sonha começar...

Com A, deseja recomeçar...


Se começar com M não voltará para A...

Se voltar com A não começará com M...


E nesse momento...

O homem e o poeta começam a sentir a possibilidade da solidão...

Percebem que seus desejos e segredos podem evaporar

Como o pingo d'água na fervura dos seus sonhos...


A distância, olham também para frente...

E desejam em segredo, que uma das duas os queira...

Ou que a vida lhes traga novas personagens e cores...

Afinal, desejos são segredos...

E... segredos não existem...


Alnary Filho - 11/01/2012

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

DOMINGO MEU - pretenso poema


Num domingo qualquer...

Meu corpo deixar a cama não quer

Talvez para não me deixar encarar a verdade

A verdade do domingo que não deixo de ter...


A verdade de um domingo qualquer...

Escondida na quase esquecida tarde...

Minha mente briga para não reconhecer

Que essa, quase todo domingo tenho de ver


Raro domingo de qualquer alegria...

Bom domingo de escassa paz verdadeira...

Saudoso domingo da vida que tinha...

Querido domingo de cena passageira...


Mais um domingo...

Mais um domingo de saudades incontidas...

De fome da alma

E de lágrimas perdidas...


Alnary Filho

21/11/2011

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

CRISE CULTURAL À BRASILEIRA - Texto Próprio

Não, não vou falar diretamente sobre crise econômica, desemprego, saúde pública, educação, pelo menos não no sentido de reivindicação legítima e urgente da população brasileira. Quero abordar um ângulo que, embora perpasse tudo isso, não tem tido acrítica aguda que necessita, e vou tentar fazer isso nas próximas linhas.

Muitos tem acompanhado a mais nova polêmica da agenda da indústria do entretenimento, o afastamento de um tal Rafinha Bastos do programa semanal da Rede Bandeirantes, CQC, por que ele disse outra das suas frases pseudo humorísticas, e há quem o defenda, baseando os argumentos em: “liberdade de expressão”, “não se pode limitar o humor”, ou outra argumentação parecida. A BAND o afastou para apenas “castiga-lo”, querendo dizer o seguinte: “você até poderia dizer que comeria a Wanessa, mas que comeria o bebê dela não!”. Pois, se a BAND realmente estivesse interessada no respeito, na ética e no humor de qualidade, o teria demitido por justa causa. Mas, e o medo da concorrência? Aí usou a velha tática da “geladeira”, parece que não deu certo, o funcionário pediu demissão e o empregador voltou atrás, tentando segurar o pseudo artista. Não que exista muita qualidade no trabalho de Wanessa Camargo, mas aí não era piada com o seu trabalho, é a tentativa de parecer engraçado com uma falta de respeito a pessoa humana.

Essa“polêmica”, é mais uma artimanha na construção de uma indústria artificial de entretenimento, cujo qual é de baixíssima qualidade, que além de não contribuir para a Cultura Brasileira, ajuda a sepultar o que resta de melhor dela.

O Brasil perdeu ontem um dos seus maiores atores, um artista do humor, o espetacular José Vasconcelos, e apenas o “burguesão metido abesta” do Jô Soares fez uma homenagem a ele. Enquanto isso os sites “bombam” com notícias sobre um sujeito que surgiu ontem, que no começo demonstrou algum talento, mas que hoje “se acha a ultima bolacha do pacote”, e com isso quer impor um humor baseado na total falta de respeito com as pessoas, com piadas gratuitas e forçadas, que só é engraçado para os débeis mentais, pseudo piadas que apenas pretendem chocar as pessoas e não fazê-las rir realmente.

E assim é a mesma coisa com relação a musica, todos sabem que a MPB de alta qualidade, assim como a musica internacional de qualidade, estão banidas das rádios brasileiras, a indústria baseada na falta de discernimento e de educação, da maioria da população brasileira, impõe uma série de porcarias as pessoas, que não podem escolher, afinal todas as rádios hoje são praticamente iguais, raríssimas são as diferentes, rádios universitárias, culturais, comunitáriase até algumas piratas.

Inventam rótulos para conquistar parcelas da população preconceituosas, como é o caso da musica sertaneja, que foi estrupada, desfigurada e por fim assassinada, com o surgimento de pseudo artistas fabricados, moldados ao gosto de alguns pseudos universitários, estou falando do rótulo idiota Sertanejo Universitário, percebem a indecência? A grande Moda de Viola e a Musica Sertaneja de Raiz foi destruída para poder ser criado um modo de vender porcaria para uma classe que tinha “vergonha” de escutar e difundir uma musica autêntica e de raiz popular, a mesma coisa é feita com o tal de funk de morro, apelativo, pornográfico e pervertido. Como também ao tal de RAP, uma perversão e uma aculturação das manifestações jovens e popularares, o que tinha de qualidade nisso foi destruído, para vender porcaria sem sentido para jovens pobres e sem escolha. Quando vejo pobres meninos, oriundos de favelas, vestidos com roupas de palhaço ostentando números de uniformes de jogadores de futebol americano, com cores, cabelos, e acessórios, que mais parecem que vão a alguma festa de fantasias no “inferno”, fico indignado, pois isso é o que vem à tona da mentira que se conta a eles de que é legal isso, de que assim passam a fazer parte de uma “tribo”, etc. Pobres diabos!

A Crise Cultural pela qual passamos é causada pelo consumismo desenfreado, pelo modismo, pela prática do descarte, pelo capitalismo que impõe a rapidez, que constrói e destrói com velocidade, modas, produtos e vidas.

E isso é o reflexo da falta de Estado, da falta de políticas públicas efetivas na Educação, no laser, na Cultura institucional que não protege a cultura popular, que é subserviente ao mercado, aos interesses do capital e dos que nem ao menos se divertem no Brasil, vivem nos salões da Europa ou Estados Unidos, e transformam acultura brasileira na latrina do mundo.

Enquanto isso, nós perdemos tempo com gente como Rafinha Bastos, indo ao show do Justin Beaber e ao Rock in Merda Rio.

Que coisa!

Alnary Nunes Rocha Filho
12/10/2011

domingo, 28 de agosto de 2011

O AMOR QUE NÃO SE ESCONDE - por Alnary Nunes Rocha - meu pai!


Em 1992, dois anos antes do seu falecimento, meu querido e saudoso pai, ALNARY NUNES ROCHA, escreveu um poema para homenagear a Escola onde ele e seus irmãos estudaram. Essa Escola chma-se Escola Municipal Machado de Assis, fica no Distrito de Guaraúna, Município de Teixeira Soares-Pr. Guaraúna foi o local onde meu pai cresceu, nascido em Ibaiti-Pr. Bem criança, veio para Guaraúna, onde meu avô Alcides da Silva Rocha, se estabeleceu como Chefe de Estação de Trens, Farmaceutico e Lider Comunitário. Guaraúna é também um local que foi fundado pelos avós de meu pai. Assim, é natural o carinho e o reconhecimento pelo local das raízes, da origem humilde e da alegria dos tempos de infância.

Eu publico aqui, com muita saudades, muito orgulho e muita felicidade.


O Amor que não se esconde

Longe avistada no cerro azul celestial.
No horizonte a deslumbrante Guaraúna!...
Pequena Vila dando exemplo de moral,
Na fé de um povo acreditando que se úna,
O amor, a paz e a crença fraternal!...

Nascida com amor de efeito natural,
É Teixeira Soares sua bela capital!
Unidas e ligadas por cordão umbilical,
Seus filhos enviando para solo Estadual,
Tem o Município o respeito Federal!...

Porém, a tônica de seu povo magistral,
Está na lealdade até transcendental,
Vicissitudes, muita luta, tanta glória,
Através "Grupo Escolar" uma vitória!
Que hoje faz cincoenta anos de história

Moderno ensino do sistema nacional,
Anexando primário e curso ginasial,
Daí estar pronto começar segundo grau.
Um bom aluno é na escola e no lar,
E com firmeza enfrentará vestibular.


Alnary Nunes Rocha
29/11/1992

quinta-feira, 16 de junho de 2011

LIBERDADE DE EXPRESSÃO - Texto Próprio



Ontem, dia 15/06/2011, todos os meios de comunicação noticiaram a decisão do STF sobre a dita “Marcha da Maconha”. Sabiamente o STF reconheceu que os manifestantes tinham o direito, previsto na Constituição, de expressar suas idéias livremente. É claro, os que são contra a liberação da droga são muitos, mas também há vários a favor, é uma questão polêmica e o assunto realmente deve ser debatido com a sociedade, e uma das maneiras de colocar o assunto na pauta de discussões, são as manifestações populares, tanto a favor como contra.

É por isso que acho contraditório a tentativa de se criar um PL – Projeto de Lei – que criminaliza as livres expressões de quem não gosta de homossexualismo, de quem é contra o casamento gay, enfim.

A liberdade de expressão preservada pelo STF no caso das manifestações a favor da descriminalização da maconha, deveria ser preservada também para as manifestações de todos que são contra as uniões gays, que são contra a adoção de crianças por casais gays, as manifestações religiosas, para as quais o homossexualismo é pecado, respeitando assim a fé e a religião de uma grande parcela da população, entre outras manifestações.

É preciso separar o que é homofobia, do que é expressão de pensamento, os gays tem uma causa nobre contra a violência, contra a segregação e o preconceito. Porém, tem também de aceitar os que pensam diferente deles, isso chama-se TOLERÂNCIA, e é, como são as coisas equilibradas e de consenso inteligente, via de mão dupla.

A intolerância gay, contra quem pensa diferente deles, não pode ser transformada em Lei, isso é um absurdo! A liberdade de expressão é maior garantia de um País democrático, praticamente a única.

É preciso prender, julgar e punir os que cometem qualquer tipo de violência contra quem quer que seja, sejam gays, negros, mulheres, crianças, idosos...Mas, uma piada não viola ninguém, uma expressão de pensamento diferente também não. Piadas “ofendem” tanto os negros, como os gays, loiras, mulheres, gordos como eu, carecas, dentuços, portadores de deficiência, e tantos outros “diferentes”, e me parece muito injusto que queiram cadeia pra quem faz piada de gay ou de negro, deveria então por na cadeia todo mundo, inclusive para os que me chamam de rolha de poço, baleia, etc.

Ora, digamos não ao maldito “politicamente correto”, e os gays que vivam sua vida, sejam felizes, os negros também, e chega de querer prender todo mundo que não gosta de “viado” ou de “preto”, isso é um direito, e tem limite na Lei, o que é mais que suficiente.

domingo, 1 de maio de 2011

CUIDADO COM OS BURROS MOTIVADOS - Entrevista com Roberto Shinyashiki

Recebi por e-mail esta entrevista, quem me enviou foi meu colega Prof. João Paulo Camargo, de Ponta Grossa-Pr. Achei muito interessante, até por que existe uma coisa que há muito me interessa discutir, que é a questão que implica no consumo de símbulos, os tais "símbulos de status", e supervalorização de algumas profissões, como médicos por exemplo e o menosprezo a profissões tão importantes quanto, como por exemplo, os professores. Além, do velho preconceito sobre profissões fundamentais como os dos agentes ambientais (catadores, garis, etc.) e dos trabalhodores de serviços gerais e de limpeza, enfim...O sucesso é medido dentro de valores capitalistas, no velho embate "naturalizado" do Winner x Loser...esta entrevista é mais que um alerta, é uma crítica para refletirmos...

Foto: Filme - O Diabo veste Prada

A revista ISTO É publicou esta entrevista de Camilo Vannuchi. O entrevistado é Roberto Shinyashiki, médico psiquiatra, com Pós-Graduação em administração de empresas pela USP, consultor organizacional e conferencista de renome nacional e internacional. Em 'Heróis de Verdade', o escritor combate a supervalorização das aparências, diz que falta ao Brasil competência, e não auto-estima.

ISTO É - Quem são os heróis de verdade?

Roberto Shinyashiki - Nossa sociedade ensina que, para ser uma pessoa de sucesso, você precisa ser diretor de uma multinacional, ter carro importado, viajar de primeira classe. O mundo define que poucas pessoas deram certo. Isso é uma loucura. Para cada diretor de empresa, há milhares de funcionários que não chegaram a ser gerentes. E essas pessoas são tratadas como uma multidão de fracassados. Quando olha para a própria vida, a maioria se convence de que não valeu à pena, porque não conseguiu ter o carro, nem a casa maravilhosa. Para mim, é importante que o filho da moça que trabalha na minha casa, possa se orgulhar da mãe. O mundo precisa de pessoas mais simples e transparentes. Heróis de verdade são aqueles que trabalham para realizar seus projetos de vida, e não para impressionar os outros. São pessoas que sabem pedir desculpas e admitiram que erraram.

ISTO É -O Sr. citaria exemplos?

Shinyashiki - Quando eu nasci, minha mãe era empregada doméstica e meu pai, órfão aos sete anos, empregado em uma farmácia. Morávamos em um bairro miserável em São Vicente (SP) chamado Vila Margarida. Eles são meus heróis. Conseguiram criar seus quatro filhos, que hoje estão bem. Acho lindo quando o Cafu põe uma camisa em que está escrito '100% Jardim Irene'. É pena que a maior parte das pessoas esconda suas raízes. O resultado é um mundo vítima da depressão, doença que acomete hoje 10% da população americana. Em países como o Japão, a Suécia e a Noruega, há mais suicídio do que homicídio. Por que tanta gente se mata? Parte da culpa está na depressão das aparências, que acomete a mulher, que embora não ame mais o marido, mantém o casamento, ou o homem que passa décadas em um emprego, que não o faz se sentir realizado, mas o faz se sentir seguro.

ISTO É - Qual o resultado disso?

Shinyashiki - Paranóia e depressão cada vez mais precoce. O pai quer preparar o filho para o futuro e mete o menino em aulas de inglês, informática e mandarim. Aos nove ou dez anos a depressão aparece. A única coisa que prepara uma criança para o futuro, é ela poder ser criança. Com a desculpa de prepará-los para o futuro, os malucos dos pais estão roubando a infância dos filhos. Essas crianças serão adultos inseguros e terão discursos hipócritas. Aliás, a hipocrisia já predomina no mundo corporativo.

ISTO É - Por quê?

Shinyashiki - O mundo corporativo virou um mundo de faz-de-conta, a começar pelo processo de recrutamento. É contratado o sujeito com mais marketing pessoal. As corporações valorizam mais a auto-estima do que a competência. Sou presidente da Editora Gente e entrevistei uma moça que respondia todas as minhas perguntas com uma ou duas palavras. Disse que ela não parecia demonstrar interesse. Ela me respondeu estar muito interessada, mas como falava pouco, pediu que eu pesasse o desempenho dela, e não a conversa. Até porque ela era candidata a um emprego na contabilidade, e não de relações públicas. Contratei-a na hora. Num processo clássico de seleção, ela não passaria da primeira etapa.

ISTO É - Há um script estabelecido?

Shinyashiki - Sim. Quer ver uma pergunta estúpida feita por um presidente de multinacional no programa 'O Aprendiz'?

- Qual é seu defeito?

Todos respondem que o defeito é não pensar na vida pessoal:

- Eu mergulho de cabeça na empresa. Preciso aprender a relaxar.

É exatamente o que o Chefe quer escutar. Por que você acha que nunca alguém respondeu ser desorganizado ou esquecido? É contratado quem é bom em conversar, em fingir. Da mesma forma, na maioria das vezes, são promovidos aqueles que fazem o jogo do poder. O vice-presidente de uma as maiores empresas do planeta me disse: 'Sabe, Roberto, ninguém chega à vice-presidência sem mentir'. Isso significa que quem fala a verdade não chega a diretor!

ISTO É - Temos um modelo de gestão que premia pessoas mal preparadas?

Shinyashiki - Ele cria pessoas arrogantes, que não têm a humildade de se preparar, que não têm capacidade de ler um livro até o fim e não se preocupam com o conhecimento. Muitas equipes precisam de motivação, mas o maior problema no Brasil é competência. Cuidado com os burros motivados. Há muita gente motivada fazendo besteira. Não adianta você assumir uma função, para a qual não está preparado. Fui cirurgião e me orgulho de nunca um paciente ter morrido na minha mão. Mas tenho a humildade de reconhecer que isso nunca aconteceu graças a meus chefes, que foram sábios em não me dar um caso, para o qual eu não estava preparado. Hoje, o garoto sai da faculdade achando que sabe fazer uma neurocirurgia. O Brasil se tornou incompetente e não acordou para isso.

ISTO É - Está sobrando auto-estima?

Shinyashiki - Falta às pessoas a verdadeira auto-estima. Se eu preciso que os outros digam que sou o melhor, minha auto-estima está baixa. Antes, o ter conseguia substituir o ser. O cara mal-educado dava uma gorjeta alta para conquistar o respeito do garçom. Hoje, como as pessoas não conseguem nem ser, nem ter, o objetivo de vida se tornou parecer. As pessoas parecem que sabem, parece que fazem, parece que acreditam. E poucos são humildes para confessar que não sabem. Há muitas mulheres solitárias no Brasil, que preferem dizer que é melhor assim. Embora a auto-estima esteja baixa, fazem pose de que está tudo bem.

ISTO É -Por que nos deixamos levar por essa necessidade de sermos perfeitos em tudo e de valorizar a aparência?

Shinyashiki -Isso vem do vazio que sentimos. A gente continua valorizando os heróis. Quem vai salvar o Brasil? O Lula. Quem vai salvar o time? O técnico. Quem vai salvar meu casamento? O terapeuta. O problema é que eles não vão salvar nada! Tive um professor de filosofia que dizia: 'Quando você quiser entender a essência do ser humano, imagine a rainha Elizabeth com uma crise de diarréia durante um jantar no Palácio de Buckingham'. Pode parecer incrível, mas a rainha Elizabeth também tem diarréia. Ela certamente já teve dor de dente, já chorou de tristeza, já fez coisas que não deram certo. A gente tem de parar de procurar super-heróis, porque se o super-herói não segura a onda, todo mundo o considera um fracassado.

ISTO É - O conceito muda quando a expectativa não se comprova?

Shinyashiki - Exatamente. A gente não é super-herói nem superfracassado. A gente acerta, erra, tem dias de alegria e dias de tristeza. Não há nada de errado nisso. Hoje, as pessoas estão questionando o Lula, em parte porque acreditavam que ele fosse mudar suas vidas e se decepcionaram. A crise será positiva se elas entenderem que a responsabilidade pela própria vida é delas.

ISTO É - Muitas pessoas acham que é fácil para o Roberto Shinyashiki dizer essas coisas, já que ele é bem-sucedido. O senhor tem defeitos?

Shinyashiki -Tenho minhas angústias e inseguranças. Mas aceitá-las faz minha vida fluir facilmente. Há várias coisas que eu queria e não consegui. Jogar na Seleção Brasileira, tocar nos Beatles (risos). Meu filho mais velho nasceu com uma doença cerebral e hoje tem 25 anos. Com uma criança especial, eu aprendi que, ou eu a amo do jeito que ela é, ou vou massacrá-la o resto da vida para ser o filho que eu gostaria que fosse. Quando olho para trás, vejo que 60% das coisas que fiz deram certo. O resto foram apostas e erros.

Dia desses apostei na edição de um livro, que não deu certo. Um amigão me perguntou: 'Quem decidiu publicar esse livro?' Eu respondi que tinha sido eu. O erro foi meu. Não preciso mentir.

ISTO É - Como as pessoas podem se livrar dessa tirania da aparência?

Shinyashiki - O primeiro passo é pensar nas coisas que fazem as pessoas cederem a essa tirania e tentar evitá-las. São três fraquezas: A primeira é precisar de aplauso, a segunda é precisar se sentir amada e a terceira é buscar segurança. Os Beatles foram recusados por gravadoras e nem por isso desistiram. Hoje, o erro das escolas de música é definir o estilo do aluno. Elas ensinam a tocar como o Steve Vai, o B. B. King ou o Keith Richards.

Os MBAs têm o mesmo problema: ensinam os alunos a serem covers do Bill Gates. O que as escolas deveriam fazer é ajudar o aluno a desenvolver suas próprias potencialidades.

ISTO É - Muitas pessoas têm buscado sonhos que não são seus?

Shinyashiki - A sociedade quer definir o que é certo. São quatro loucuras da sociedade... A primeira é instituir que todos têm de ter sucesso, como se eles não tivessem significados individuais. A segunda loucura é: Você tem de estar feliz todos os dias. A terceira é: Você tem que comprar tudo o que puder. O resultado é esse consumismo absurdo. Por fim, a quarta loucura: Você tem de fazer as coisas do jeito certo. Jeito certo não existe. Não há um caminho único para se fazer as coisas.

As metas são interessantes para o sucesso, mas não para a felicidade. Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito. Tem gente que diz que não será feliz, enquanto não casar, enquanto outros se dizem infelizes justamente por causa do casamento. Você pode ser feliz tomando sorvete, ficando em casa com a família ou com amigos verdadeiros, levando os filhos para brincar ou indo à praia ou ao cinema. Quando era recém-formado em São Paulo, trabalhei em um hospital de pacientes terminais. Todos os dias morriam nove ou dez pacientes. Eu sempre procurei conversar com eles na hora da morte. A maior parte pega o médico pela camisa e diz: 'Doutor, não me deixe morrer. Eu me sacrifiquei à vida inteira, agora eu quero aproveitá-la e ser feliz'. Eu sentia uma dor enorme por não poder fazer nada. Ali eu aprendi que a felicidade é feita de coisas pequenas. Ninguém na hora da morte diz se arrepender por não ter aplicado o dinheiro em imóveis ou ações, mas sim de ter esperado muito tempo ou perdido várias oportunidades para aproveitar a vida.