quinta-feira, 10 de junho de 2010

A CONTRADIÇÃO ESQUECIDA...- pretenso poema em prosa


A rotina...
O cansaço, as dores nos calcanhares e nas pernas...
O futuro, há! O futuro...
A vida, a solidão...
O prazer de estar com os amigos...
As saudades...
O amor (e a falta de)...
As incertezas das convicções...
E "tudo que é sólido se desmancha no ar"...
A alegria par e par com a tristeza...
A quase saúde...
O quase em tudo...
O inteiro pela metade...
A contradição...
A ambição...
A abnegação...
A solidariedade...
A generosidade...
O egoísmo...
A lua e o sol...
A fé de beato louco e andarilho...
A certeza de que:
"no adestramento de nossa consciência, sentimos que ela nos beija ao mesmo tempo que nos morde"...
As vontades reprimidas...
O beijo na boca...seus cabelos compridos grudados no meu suor...
As frases entrecortadas...ofegando...
O dia e a noite...
O trabalho...
E acima de tudo o vício...
O resumo de uma vida.

Alnary Filho
10/06/2010

OBS: As frases entre aspas são de outros autores: a primeira de Karl Marx e a segunda de Friedrich W. Nietzsche.

terça-feira, 8 de junho de 2010

O MALDITO POLITICAMENTE CORRETO - texto próprio


Não se pode mais nada! O tal do politicamente correto está acabando com tudo. Tudo é preconceito e dá processo. Só que o politicamente correto tem algum tipo de amparo legal para apenas algumas das minorias (minorias?), os negros(as) e os gays, principalmente. Mas não existe o politicamente correto para os gordos(as), os(as) carecas, os(as) magrelas, os branquelos(las), os espinhudos(das), os que usam óculos, aparelhos odontológicos, etc. Por exemplo: Num jogo de futebol, aquela coisa, chute na canela, carrinho, contato, provocação, xingam-se mães, pais, esposas, etc. E a coisa vai, alguém é expulso ou ganha cartão amarelo, e passa, o jogo acaba, tudo dentro do mundo do futebol, que é competitivo e acirra e/ou transcende o espírito esportivo, porém, basta um jogador branco xingar um jogador negro, no calor do jogo, por exemplo, “seu macaco FDP” ou coisa parecida, que o negro assim que acaba a partida, dá uma longa declaração a imprensa presente e vai fazer uma denúncia na delegacia mais próxima, não por ter sua mãe ofendida, afinal, que é que tem demais a mãe ser xingada de puta, mas, a palavra macaco, essa é imperdoável, tem de ser punida com prisão sem direito a fiança, onde já se viu uma coisa dessas, macaco não! Macaco é uma ofensa sem perdão! Outro exemplo: A Parada Gay de São Paulo, ao ler um artigo de Carlos Apolinário na Folha de São Paulo de 07/06/2010, intitulado “A ditadura gay”, entre outros aspectos que o mesmo aborda, escreve que o movimento gay está fazendo um grande lobby para que o Congresso Nacional altere a Lei 7.716 que define os crimes de racismo, com objetivo de que a legislação passe a punir também, aqueles que tem opiniões divergentes das suas. Pois, se alguém falar contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ou disser que não concorda com a adoção de crianças por homossexuais, poderá então, ser processado. E mais, caso essa lei seja alterada, não se poderá falar da Parada Gay, que mesmo sendo um horroroso espetáculo de esculhambação, tem gente que gosta, mas também tem gente que não gosta. A Constituição Federal assegura o direito à liberdade de expressão. Podemos xingar a mãe dos outros, ofender a honra de alguém no calor de uma discussão, criticar o divórcio entre héteros, falar de sindicatos, de empresários, de políticos, de católicos, de evangélicos, padres e pastores. Mas se fizerem alguma piadinha de mal-gosto (e é isto que ela é apenas) com alguém da raça negra, ou alguém xingar de “macaco”, são considerados racistas, e se falarem contra o pensamento dos gays, são considerados homofóbicos, e ambos os grupos ameaçam com processos. Punir alguém por manifestar opinião divergente, ou por xingar no calor de uma partida de futebol, é próprio das ditaduras. Estamos vivendo numa ditadura do “Politicamente Correto”, pois na democracia, qualquer pessoa pode discordar, e também se tomar um chute desleal numa partida de futebol e também ser xingado de FDP, pode xingar o agressor, ou adversário do que quiser, independente se ele é negro, branco, verde, vermelho ou gay. Racismo e homofobia, residem não nas palavras, ou na expressão de pensamentos divergentes, mas nas atitudes criminosas do opressor que paga um salário menor para um negro ou para um gay só por que eles são negros ou gays, ou ambos, ou os perseguem, prejudicam, agridem gratuitamente, os impedem de entrar e sair de onde quer que seja, ou os colocam em constrangimento perante a outras pessoas, os desqualificam profissionalmente por serem dessa ou daquela raça, ou dessa ou aquela orientação sexual. Sem esquecer, absolutamente, nos crimes hediondos de assassinatos por motivos de preconceito racial ou sexual. Essas ações sim, devem ser punidas com rigor. O resto é uma grande bobagem, é pretexto para apologia dessa ou daquela ideologia, é recalque de afirmação ou propaganda gratuita. Da maioria das atitudes constrangedoras e criminosas, também sofrem, gordos, carecas, magrelos, espinhudos, dentuços, etc. Só que o politicamente correto não os ampara. Quem dirá as Leis. É pra pensar!

sexta-feira, 7 de maio de 2010

PT x PT - texto próprio


Algumas coisas tem de ser ditas em vista das eleições que se aproximam.
O cenário político paranaense entra em conflito com o cenário nacional, a medida em que o Governo Lula pressiona o PT do Paraná para que se façam alianças pouco ortodoxas, para dizer o mínimo e totalmente impossíveis para dizer o máximo.
A questão primeira da aliança com o PDT do Senador Osmar Dias, está para mim, no máximo, ou seja, como militante do PT é impossível apoiar, votar, ou fazer qualquer gesto na direção de te-lo como Governador, ele representa os interesses do agronegócio (sua parte mais conservadora), se diz ser ex-UDR. É portanto, representante daquilo tudo que nós, militantes do PT, sempre lutamos contra. E assim, não é possível fazermos qualquer tipo de concessão nesse sentido, nem mesmo pelo argumento de construir um bom palanque para a nossa Candidata a Presidência, Dilma Roussef.
E pelo lado do PDT de Osmar, existe uma tremenda má vontade para essa aliança, visto que seus militantes são anti-PT e anti-Dilma, e em minha opinião, jamais fariam campanha para ela, e tampouco o senador faria também, exceto nas campanhas de televisão oficiais, e olhe lá.
Assim, me parece claro que a insistência de Lula em aproximar PT e PDT no Paraná é como tentar misturar óleo e água, impossível.
Por outro lado, a insistência de alguns petistas paranaenses, na opinião de não lançar candidatura própria ao Governo do Estado, é um dos equívocos mais condenáveis da história recente do Partido. Mesmo com declarações dos dirigentes locais a favor da candidatura pŕopria, algumas correntes não querem, o que para mim, só pode ser por existir interesses pessoais, sejam para eleger alguém, ou não deixar surgir novas lideranças no Estado, conservando-se os "feudos" partidários, que tanto combatemos no passado. E isso acontece por que "deixamos" entrar no PT gente muito ruim, políticos de terceira categoria, parece até coisa da "direita", infiltrando "agentes" para corroer o PT por dentro.
Na minha opinião, devemos lançar candidatura própria sim, com um quadro novo, que pode surpreender na reta final. Ressalto que o PT sempre fez isso, e foi assim que se constituiu e cresceu, querer ser igual aos outros é o que está nos matando aos poucos.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

ADIAMENTO



Fernando Pessoa abaixo...

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele á que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que estará bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...
Sim, o porvir...

Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)

domingo, 10 de janeiro de 2010

TÃO REAL - musica


Lareira pra acender

O céu pra se olhar

E tudo está tranquilo por aqui


Você vai me vencer

Eu vou me apaixonar

Não há mais o que decidir


Nos nossos lábios

Todas as palavras nada dizem


Nos nossos olhos

Tudo o que já vimos foi vertigem


E é tudo tão real

Mas nada normal


Se lembre

Já me sinto ao seu lado no seu mundo

Me identifico com você de um jeito tão profundo


E é tudo tão real

Mas nada normal


Autor desconhecido

Cantado por Vitor & Léo

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

CONTRAREVOLUÇÃO NA JUSTIÇA - por Boaventura de Souza Santos

Caros amigos e leitores, o artigo abaixo é mais que um alerta a todos os que são engajados em lutas sociais, é imprescindível que estejamos atentos a isso, e mais do que nunca é necessário utilizarmos de nossas únicas armas, que são o voto e a organização para pressão popular.

Abraços
Alnary

TENDÊNCIAS/DEBATES


ESTÁ EM curso uma contrarrevolução jurídica em vários países latino-americanos. É possível que o Brasil venha a ser um deles.
Entendo por contrarrevolução jurídica uma forma de ativismo judiciário conservador que consiste em neutralizar, por via judicial, muito dos avanços democráticos que foram conquistados ao longo das duas últimas décadas pela via política, quase sempre a partir de novas Constituições.
Como o sistema judicial é reativo, é necessário que alguma entidade, individual ou coletiva, decida mobilizá-lo. E assim tem vindo a acontecer porque consideram, não sem razão, que o Poder Judiciário tende a ser conservador. Essa mobilização pressupõe a existência de um sistema judicial com perfil técnico-burocrático tico, capaz de zelar pela sua independência e aplicar a Justiça com alguma eficiência.
A contrarrevolução o jurídica não abrange todo o sistema judicial, sendo contrariada, quando possível, por setores progressistas.
Não é um movimento concertado, muito menos uma conspiração. É um entendimento tácito entre elites político-econômicas e judiciais, criado a partir de decisões judiciais concretas, em que as primeiras entendem ler sinais de que as segundas as encorajam a ser mais ativas, sinais que, por sua vez, colocam os setores judiciais progressistas em posição defensiva.
Cobre um vasto leque de temas que têm em comum referirem-se a conflitos individuais diretamente vinculados a conflitos coletivos sobre distribuição de poder e de recursos na sociedade, sobre concepções de democracia e visões de país e de identidade nacional.
Exige uma efetiva convergência entre elites, e não é claro que esteja plenamente consolidada no Brasil. Há apenas sinais nalguns casos perturbadores, noutros que revelam que está tudo em aberto. Vejamos alguns:


1- Ações afirmativas no acesso à educação de negros e índios. Estão pendentes nos tribunais ações requerendo a anulação de políticas que visam garantir a educação superior a grupos sociais até agora dela excluídos.
Com o mesmo objetivo, está a ser pedida (nalguns casos, concedida) a anulação de turmas especiais para os filhos de assentados da reforma agrária (convênios entre universidades e Incra), de escolas itinerantes nos acampamentos do MST, de programas de educação indígena e de educação no campo.


2- Terras indígenas e quilombolas. A ratificação do território indígena da Raposa/Serra do Sol e a certificação dos territórios remanescentes de quilombos constituem atos políticos de justiça social e de justiça histórica de grande alcance. Inconformados, setores oligárquicos estão a conduzir, por meio dos seus braços políticos (DEM, bancada ruralista) uma vasta luta que inclui medidas legislativas e judiciais.
Quanto a estas últimas, podem ser citadas as "cautelas" para dificultar a ratificação de novas reservas e o pedido de súmula vinculante relativo aos "aldeamentos extintos", ambos a ferir de morte as pretensões dos índios guarani, e uma ação proposta no STF que busca restringir drasticamente o conceito de quilombo.


3- Criminalização do MST. Considerado um dos movimentos sociais mais importantes do continente, o MST tem vindo a ser alvo de tentativas judiciais no sentido de criminalizar as suas atividades e mesmo de o dissolver com o argumento de ser uma organização terrorista.
E, ao anúncio de alteração dos índices de produtividade para fins de reforma agrária, que ainda são baseados em censo de 1975, seguiu-se a criação de CPI específica para investigar as fontes de financiamento.


4- A anistia dos torturadores na ditadura. Está pendente no STF arguição de descumprimento de preceito fundamental proposta pela OAB requerendo que se interprete o artigo 1º da Lei da Anistia como inaplicável a crimes de tortura, assassinato e desaparecimento de corpos praticados por agentes da repressão contra opositores políticos durante o regime militar.
Essa questão tem diretamente a ver com o tipo de democracia que se pretende construir no Brasil: a decisão do STF pode dar a segurança de que a democracia é para defender a todo custo ou, pelo contrário, trivializar a tortura e execuções extrajudiciais que continuam a ser exercidas contra as populações pobres e também a atingir advogados populares e de movimentos sociais.
Há bons argumentos de direito ordinário, constitucional e internacional para bloquear a contrarrevolução jurídica. Mas os democratas brasileiros e os movimentos sociais também sabem que o cemitério judicial está juncado de bons argumentos.

BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS, 69, sociólogo português, é professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal). É autor, entre outros livros, de "Para uma Revolução Democrática da Justiça" (Cortez, 2007).



quarta-feira, 18 de novembro de 2009

CLASSE MÉDIA


Vendo os ataques do PSDB ao PT, na Globo ontem, sobre os problemas do apagão, não pude deixar de perceber que as considerações abaixo tem muita lógica, pois afinal, a mensagem que eles transmitiram é para a Classe Média, a velha formula né: “vamos aproveitar tudo que acontece de ruim pra culpar o PT”, no caso agora o alvo é a Dilma.

O PSDB, latiu ontem como se quando estava no governo nada de ruim tivesse acontecido, se apresentando como os salvadores do País, uma coisa tão rídicula e tão obcena que talvez até mesmo essa Classe Média, que reclama de barriga cheia, possa ficar em dúvida. Mas resista! Pois como o texto abaixo explica de modo didático, as aspirações da CM, se baseiam nas ilusões que consomem através de seus meios restritos de informação, aliados aos seus inerentes preconceitos de classe que apreendem desque nasceram.


O Texto abaixo mostra como entrar pra classe-média, como é o pensamento da classe-média, mesmo sem que a renda seja exatamente da classe-média, confira:


CULPA DO LULA:


"Culpa do Lula" é um expediente médio-classista que caracteriza qualquer coisa que possa dar errado no Brasil. É um híbrido de "transferência de responsabilidades" com "senso de posição social", dois conceitos interligados que compõem a filosofia de vida da Classe Média. Logo, para ingressar neste grupo especial da nossa sociedade, será necessário aprender a vincular o nome do ex-metalúrgico a qualquer evento ou constatação negativa que envolva o Brasil. Afinal, não basta ignorar o presidente. A revista, a tevê, o jornal e tudo aquilo em que você acredita urram para que você o odeie. Obedeça.


Ora, o apagão é culpa do Lula, afinal foi o Lula que inventou e implementou o sistema de energia, claro que a culpa é dele! E mais, da Dilma, afinal não é ela quer ser Presidente, e mais a culpa é do PT, claro, essa entidade demoniaca que até mesmo influencia e corrompe as condições climáticas. E ainda a Dilma fica quieta, que horror, a culpa é deles por eu não poder assistir o Jornal Nacional e a novela.

Um bom estudo de caso consiste na observação das reações e do posicionamento da Classe Média em relação à disputa para sede das Olimpíadas de 2016. Imagine voltar a alguns dias antes da escolha da cidade sede dos Jogos Olímpicos. Como bom membro da Classe Média, você primeiramente duvidaria, com todas as suas forças, da capacidade do governo brasileiro conseguir uma coisa dessas. Culpa do Lula. Um país tão bagunçado assim nunca será capaz de trazer pra cá um evento tão importante, de gente civilizada, uma coisa tão grandiosa e que nos traria tantos benefícios. Nosso presidente é despreparado e a comunidade internacional não o leva a sério. Culpa do Lula de novo.

Com o passar dos dias, a televisão (sua janela límpida e cristalina para a verdade sobre o mundo) lhe informaria que as chances são reais. E se o Rio vencer, não haverá culpa de nada para imputar no Lula. Isto seria capaz de botar em parafuso a cabeça do cidadão, tal qual um software mal programado com erro de sintaxe - um legítimo fatal error. Felizmente o cérebro humano possui mecanismos que impedem esse tipo de conflito: o médio-classista automaticamente começa a reconsiderar sua opinião sobre os Jogos Olímpicos, uma forma de desfazer esse nó nos neurônios.

O Rio está quase ganhando. A partir desse momento, o cidadão de Classe Média já conjectura se ser sede de Olimpíadas é realmente bom para o Brasil. Afinal, somos um país de terceira, violento, corrupto e pobre. Culpa do Lula. Tomara que o Rio perca. Aí, sai o anúncio: o Rio venceu. Agora, o médio-classista tem certeza de que isso é ruim. Além de ser um desrespeito com o Primeiro Mundo, um evento desse porte tem tudo para ser um fracasso em terras brasileiras. Vão desviar esse dinheiro, que deveria ser investido em educação e saúde (finja que você se importa, não interessa se você é usuário de educação e saúde privadas). E o dinheiro dos seus impostos vai pra mão dos políticos, que vão roubar quase tudo. Culpa do Lula (ignore que ele não será o Presidente em 2016).

RACISMO:

Para se tornar um genuíno membro da Classe Média brasileira, você não pode ser racista. Simplesmente porque, na ótica da Classe Média, o racismo não existe no Brasil. Não existe privilégio para nenhuma raça, tudo se pode conseguir através do esforço e do trabalho, seja a pessoa médio-classista ou negra. Convença-se disso.

Racismo hoje, talvez só nos Estados Unidos. Ali sim já se praticou racismo "do bom", racismo "de raiz", onde qualquer um pode encher um neguinho de porrada ou atear fogo na casa dele quando quiser... Mas hoje, nem lá as coisas são como eram... o presidente deles é negro, então os negros não têm do que reclamar.

Tome cuidado! Essa história de cotas, de segregação racial, de discriminação e tratamento diferenciado não pode afetar sua culta percepção do mundo, a percepção de quem recebeu uma bela educação paga nos melhores colégios católicos. Você dever entender isso como mera coisa de livros de História, coisa que ninguém lembra mais, da época em que trouxeram os negros escravizados da África, situação que logo mudou quando a Princesa Isabel assinou a tal parada, e desde então brancos e negros têm acesso ao que quiserem em igual condição.

Para demonstrar a seus estimados colegas da Classe o quanto você faz por merecer a aceitação no grupo, discuta, sempre que surgir o tema, sobre como os negros simplesmente não querem estar na mesma posição dos brancos (lembre-se de representar uma "indignação analítica contida" quando disser isto). Você causará suspiros de admiração, será ouvido e respeitado por seus pares. Argumente que, se você conseguiu chegar onde chegou, qualquer negro também conseguiria, pois este é um país onde o mérito funciona e é a base de tudo. Diga que você acha estranho, mas talvez, por uma questão de gosto pessoal, eles prefiram jogar capoeira a ir para a Universidade (novamente contenha a indignação de palestrante culto). E dê o veredito: se os negros estão reclamando, botando a culpa nos brancos, querendo cotas, se organizando em grupos culturais, movimentos de ações afirmativas e bandas de música black, eles é que são racistas! (neste ponto, você fica autorizado pela audiência a ignorar a autocontradição).

Por fim, para dar o golpe de misericórdia e carimbar de vez seu passaporte ao mundo da Classe Média, fale sobre sua relação com os negros. Decore: você não deve ter nada contra nem a favor deles. Você os trata como qualquer pessoa, e às vezes, com humilde magnificência, até dá bom dia ao jardineiro do prédio e à diarista. Você não namoraria uma pessoa negra, mas até daria uns pegas (se ela não contasse pra ninguém). Você acha que o Governo tinha que criar Escolas Técnicas para "capacitar" pessoas para o trabalho manual, o que é uma ótima alternativa para os negros arrumarem empregos. Defenda o ponto de vista que explica que as Universidades, as vagas de Juiz de Direito e a alta sociedade têm pouquíssimos negros apenas por coincidência, ou até mesmo uma questão estatística: eles existem mesmo em menor número, tanto que você quase não os vê nas festas que frequenta. E, no final, você deve rir dizendo que ainda tem gente que acredita nessa baboseira de "casa grande" e "senzala".

INFORMAÇÃO (leitura da Classe Média)

Para o médio-classista, é muito difícil arrumar um tempo pra ler. A vida atribulada, os negócios, a ralação diária para garantir as contas pagas (graças a Deus), os filhos, a faculdade, nada disso deixa tempo para uma boa leitura. Mas isso tem que ser feito, afinal, a superioridade intelectual é inerente à Classe, e não há como declamar nas seções de cartas da revista semanal, (Veja, por exemplo, muito utilizada como fonte do Médio-classista brasileiro) sobre a falta de instrução do povão se você não ler seus dois livros anuais.

Quem não tem tempo para ler tem que ser seletivo, e ser seletivo é uma especialidade do cidadão da Classe Média. Então, para que todo mundo na Book Store saiba que você é Classe Média, vá direto aos Best-Sellers. Ali você terá segurança para escolher um livro "da moda", um livro que fará todo mundo no seu trabalho te admirar, um livro que todos quererão emprestado. Apareça com algum best-seller da semana e incremente sua reputaçao tanto de "culto" quanto de "antenado", igual àquele cara que introduziu O Código da Vinci na turma do escritório. A lista dos mais vendidos nunca erra.


O leitor médio-classista, antes de tudo, é um eclético. Não importa o tema, não importa o autor: o que estiver na moda, se vender muito, ele compra. Mas sempre há os gêneros que fazem mais sucesso: mistério, esoterismo, espiritismo, política, auto-ajuda sempre são considerados bons livros. Mas se você quer mesmo é botar pra quebrar, pode ir às últimas consequências do médio-classismo e apelar para os "gênios" deste público: Paulo Coelho, que tem mistério, esoterismo e auto-ajuda, tudo misturado; Ali Kamel, que junta política e ficção; Dan Brown, só porque escreveu o tal Código... Mas se você, aspirante à Classe Média, persiste num impasse diante de tantas boas opções da banca de Best Sellers, atente a um macete que nunca falha: na dúvida, compre o que tem a capa mais bonita.


Conclusão:

Para ser da Classe Média, a “Culpa do Lula” precisa ser uma entidade tão sagrada para você, que te faça torcer com ardor e sinceridade para que o Brasil perca. É claro, baseado na sua “profunda” base de dados e discursos teleguiados da Classe Média. Pois só assim você poderá pronunciar "culpa do Lula", em tom de palavras mágicas, sentando em seu sofá quentinho e macio, cercado pelas grades do condomínio, tomando seu café e vestido com seu roupão felpudo. Esta será a sua fórmula para dormir tranquilo depois do Fantástico.

Fonte e fotos www.classemediawayoflife.com.br