domingo, 6 de abril de 2008

A LISTA - Osvaldo Montenegro



Faço uma lista de grandes amigos
Quem você mais via a dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia?
Quantos você já não encontra mais?

Faço uma lista de sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar?
Quantos amores jurados para sempre
Quantos você conseguiu preservar?

Onde você ainda se reconhece?
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria?
Quantos amigos você jogou fora?

Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos você guardava
Hoje são bobos, ninguém quer saber

Quantas mentiras você condenava
Quantas você teve de cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Era o melhor que havia em você

Quantas canções que você não cantava
Hoje, assobia pra sobreviver
Quantas pessoas que você amava
Hoje, acredita que amam você

Osvaldo Montenegro

sábado, 5 de abril de 2008

PALAVRAS - Ivo Rodrigues Jr. e Paulo Leminski


Palavras
Minhas palavras
Chamas nos seus ouvidos

Poemas
Minhas palavras
Minhas palavras, são tuas, tão nossas

Sou eu, sou, você sabe
Eu sou seu problema, uma frase
um poema, um bom dia que você escutou

A meia-noite, uma palavra, meu nome
Chamas nos seus ouvidos

Meu nome a meia-noite
Chamas meu nome

Metade de mim te procura
Metade te acha

LOBA DA ESTEPE - Helio Pimentel e Ivo Rodrigues Jr.


MUSICA DA BANDA BLINDAGEM


Meu sangue vermelho
Não reflete no espelho
Brilho da estrela
Olhos cegos
Não posso vê-la

Meu sangue vermelho
Corre no cristal
Noite clara de lua
Loba da estepe
Te espero
Minha alma é sua

Eu te mandava pra longe da terra
Pra não te ver mais
Pra você eu inventava uma guerra
Mas não sou capaz

Loba da estepe
Te espero
Minha alma é sua

A MILONGA PERDIDA - Péricles de Holleben Mello


Cidade triste
Tecer contigo a relação cotidiana
Até o alto da Catedral
Desde o baixo das Uvaranas

Rondar contigo pelas tardes lentas
Afugentar a dor que me sustenta
E pelas lágrimas de um antigo amor
Buscar tuas veredas

Desta varanda de onde te vejo adormecida
Voltar sozinho do meu cansaço e medo

Mais uma vez tuas ruas
Teus olhares secretos
Cantos que só eu sei.

Te caminho pelo dorso iluminado
Te suplico que venhas ao meu encontro
Com teus meandros de fel
Com tuas manhãs de sábado
Teus barulhos, teus baldios

Se te persigo cidade
É sombra de velha sina
Talvez tua água ou teu vento
Teus telhados nas colinas
Os engasgados silêncios

Quando te cruzo cidade
Alguma coisa por dentro
Anseia uma outra cidade
E se insurge contra o tempo

Cidade triste
Há lamentos nos bares
Nenhum murmúrio nas praças
Operários sem rumo
Sucumbem ao pó das fábricas
E penduram seus sonhos.
Nas vila abandonadas
Dias de tédio que passam.

De noite em Uvaranas
Quando a lua se inclina
Brotam amores curtos
Na rude solidão
Dos quartos proletários.
Que restará de manhã?

Cidade triste
Procuro em tuas ladeiras
A milonga perdida
Sinto os meus passos.
Teu pulsar se alastra em minhas entranhas
A cidade que respiro é a última.

quarta-feira, 5 de março de 2008

PESQUISA PELA VIDA - autoria própria


Nos anos 1980, um livro muito bom, com uma linguagem descolada e jovem, extremamente moderna pra época, foi indicado como leitura para os vestibulares de 1984, 1985, 1986 e 1987, fez enorme sucesso nesse País de mínimos leitores, esse livro é o grande Feliz Ano Velho de Marcelo Rubens Paiva, que conta o seu drama pessoal, quando aos 18 anos de idade após um mergulho num lago muito raso, bateu a cabeça numa pedra do fundo e fraturou uma vértebra logo abaixo do pescoço que o deixou tetraplégico. Numa mistura de herói teen com anti-herói clássico, ele conta com maestria suas relações com amigos, namoradas, faculdade e luta política em flash back, mostra seu lado humano, suas fraquezas, suas vontades, seus sonhos e planos, suas saudades do pai “sumido” pela ditadura militar brasileira, seu gosto musical, entre outros elementos, que o fez ter uma imediata identificação com os jovens da época, eu inclusive. Mas sobretudo, a sua infinita agonia e tristeza por ter seus sonhos interrompidos, ver o futuro planejado evaporar na sua frente, a raiva para com Deus e “...seus representantes aqui na terra...” (sic), e muito claramente o seu desconsolo pela ciência médica não ter ainda um remédio para o seu problema, que ele brilhantemente mostra ser um problema de milhares de pessoas, pessoas que ele só percebeu a existência por ter agora os mesmos problemas, a deficiência física, ou, politicamente correto, “portadores de necessidades especiais”.
Hoje, 05 de Março, o Supremo Tribunal Federal decidirá pela constitucionalidade ou não das pesquisas com células-tronco. Um tema polêmico. Polêmico por que?
Nesse país de milhões de iletrados na mesma proporção de milhões de fanáticos religiosos (fanáticos quando convém, diga-se de passagem), a igreja católica principalmente e suas bancadas (cambadas?) de políticos, entre outros, criaram essa polêmica, recheada de falta de informação, conveniente para o “rebanho” ou informação parcial, que forma uma opinião confusa, sem base para discussão. Não, dessa vez não vou “meter o pau” na Globo, que até onde eu vi foi o mais isenta possível, dentro de sua ótica, claro!
O problema é que a explicação científica, que é realmente importante, não chega ao ouvido povo, que com toda a propaganda medieval da igreja, já teria extrema dificuldade de entender, mas que com a gritaria insana de tanto político que agarra uma bandeira apenas por morar no “maior país católico do mundo” e pretende com isso garantir eleitores, não ouve mesmo, não houve informações importantíssimas, como a de que as pesquisas serão feitas com embriões inviáveis, ou seja, embriões que mesmo transplantados para um óvulo não gerarão uma criança, e mais do que isso, que essas pesquisas são a esperança de milhões de brasileiros portadores de necessidades especiais, dos que sofrem de outros males como as doenças degenerativas do cérebro, diabetes, câncer, entre tantas outras.
O Brasil tem uma legislação muito boa, permite as pesquisas, mas não permite a clonagem terapêutica, na minha opinião, uma lei equilibrada, não fere a ética, não “brinca” de Deus e coloca o País na vanguarda mundial da ciência médica.
É preciso que se mantenha a constitucionalidade dessas pesquisas. É preciso que os governos, esse e os próximos, se preocupem com o nível de informação que nosso povo recebe e através de quem recebe. Sim! Eu sei! Liberdade de expressão! Sim, sim, sim! Numa democracia devemos deixar os imbecis gritarem, está bem! Mas temos de fazer com que nosso povo entenda que a ciência não é inimiga de Deus, até por que Deus não é propriedade de nenhuma igreja, e se ele deu inteligência para o homem e a mulher salvarem seus semelhantes através de descobertas e pesquisas científicas, isso é sua vontade e sua manifestação.
O que a igreja faz pelas pessoas que sofrem dos males que essa pesquisa pode beneficiar? O que a igreja faz para amenizar a fome das crianças que nascem aos milhares devido a proibição da camisinha e de outros métodos anticoncepcionais? Com o que a igreja contribui, de verdade?
Vão falar das caridades, das entidades, sim, sim, eles têm algumas sim, ajudam algumas pessoas sim, não nego, mas estou falando de um bem permanente, alguma coisa que a igreja pode fazer com os bilhões do Banco do Vaticano, ou os outros bilhões das igrejas evangélicas, arrecadados pela fé das pessoas, das mesmas pessoas que deixam sofrer e morrer pela ignorância religiosa pregada, que apenas favorece seus príncipes e chefes.
Eu iniciei contando sobre um livro da década de 1980, para poder falar que a ciência precisa estar amparada na Lei, para que possamos salvar vidas e quem sabe regenerar milhares de brasileiros e brasileiras que como o Marcelo Rubens Paiva tiveram seus sonhos interrompidos, bem como todos os que sofrem de doenças que precisam desesperadamente de esperança. Se a igreja se autopromove como a dona da esperança de seus fieis, que então não seja quem tire a esperança de outros fieis, fieis na vida, em Deus e na Ciência.

Alnary Rocha
05/03/2008

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

FIDEL - autoria própria







O afastamento do Líder Cubano Fidel Castro do governo de seu País, marca o fim de uma era e do comando de um dos maiores lideres revolucionários da história contemporânea.
A Revista Veja, como era de se esperar, reacionária como é, põe em manchete de capa “Já vai tarde”, esse tipo de manchete sensacionalista é ridícula, é imbecil, demonstra o quanto esse veículo de comunicação é tendencioso, manipulador e conservador!
Essa demonstração idiota da Revista Veja é tão imbecil quanto possíveis atitudes de desespero dos partidários do regime cubano.
Não é o caso nem de uma e nem da outra atitude. É necessário ter em mente que Fidel Castro envelheceu, ficou doente e precisou se afastar do comando do governo e que desde 1985 o seu sucessor já havia sido declarado, é seu irmão Raúl Castro e há quase dois anos essa transição vem sendo preparada, de forma inteligente e o menos impactante possível, não apenas para manutenção do regime, como também para manter a força diante do poderoso inimigo americano.
Os fãs dos Estados Unidos, que arrotam a palavra “liberdade”, usando-a inadequadamente, assim como a palavra “democracia”, e que deveriam usar no lugar dessas, a palavra “capitalismo”, como essa porcaria da VEJA, deveriam lembrar a história de Fidel Castro, lembrar o que era Cuba antes da revolução e o que é Cuba hoje.
Cuba de Fulgencio Batista, que era um ditador de direita, fantoche dos Estados Unidos, fazia de Cuba o quintal do país do norte.
De 1902, quando os norte-americanos tiraram os espanhóis da ilha e desceram goela abaixo dos cubanos a odiosa Emenda Platt, que deu direitos perpétuos aos EUA de manter bases militares em Cuba, assim como de intervirem nos seus assuntos sempre que considerasse necessário, a 1934, os yankees, deitaram e rolaram na ilha, e como o interesse era apenas estratégico, devido à entrada para o Canal do Panamá, patrocinavam um governo fantoche atrás do outro, mesmo depois da Emenda Platt, isso fazia do povo cubano pessoas miseráveis, famintos, esfarrapados, explorados da maneira mais espúria.
Até que Fidel Castro e mais 81 homens, na madrugada de 25 de novembro de 1956, a bordo de um velho iate de 17 metros, o Granma, saídos de Tuxpan no México em direção a Província do Oriente, onde invadiram Cuba e fizeram a revolução. Sem entrar nos detalhes das dificuldades dessa viagem, tempestades, um quase naufrágio, poucas armas e o desanimo natural dos companheiros, Fidel ao pisar na ilha disse: “Agora, os dias da tirania estão contados”. E com o apoio de seu povo, menos de dois anos depois ele entrava triunfante em Havana, como líder de uma revolução, realmente popular e vitoriosa.
É claro que o regime socialista não é perfeito, tem suas falhas, mas o povo cubano nunca mais passou fome, tem educação de extrema qualidade, inclusive com cursos de pós-graduação ofertados e procurados por estudantes do mundo todo, medicina de ponta e saúde pública de qualidade, não há analfabetos em Cuba, não há sem-tetos em Cuba, existe pobreza, mas não existe miséria, os que fogem vão em busca do brilho da ilusão do capitalismo que disfarçado de liberdade enganam os cubanos que morrem no mar e os que sobrevivem, em sub-empregos e as cubanas que viram prostitutas em Miami. E também, se o embargo econômico desumano imposto pelos Estados Unidos não existisse, as condições econômicas e sociais em Cuba seriam bem melhores, e se, com esse embargo, Fidel conseguiu manter sua ilha, imaginem sem.
Por isso e por ser um farol para América Latina, devemos reverenciar o grande líder Fidel Castro, exatamente ao contrário do que a porcaria da VEJA diz. Felizes dos heróis que morrem jovens, na luta, com um tiro no peito, ou como mártires de uma causa, como Che, seu fiel companheiro!
Que pena Fidel, que pena que os heróis que envelhecem e adoecem, não tenham a mesma deferência!
Hasta la victoria siempre!


Alnary Rocha
27/02/2008

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

PAI E FILHO - diálogo em poemas de 1985




Existem coisas que se não fossem os registros, nem que sejam os mais precários, se perderiam no tempo e não poderiamos recuperar, muitas coisas não se recuperam, como a palavra venenosa que se diz de cabeça quente, a briga com a família por razões tolas, etc...


Os poemas abaixo, foram escritos por mim e por meu pai, em 1985, por essa época eu tinha 18 anos de idade, namorava minha ex-esposa, da qual 10 anos depois estava separado. Meu pai queria que eu estudasse e fosse mais devagar com a relação, mas naquela época, aquela relação era só o que importava, então, ele foi radical, me mandou pra Curitiba e proibiu o namoro, é óbvio que eu não o obedeci e muitas vezes brigamos, até que um dia houve uma briga muito feia, coisas ofensivas e desrespeitosas foram ditas, que eu mais tarde me arrependi, e a forma que encontrei para falar aos meus pais, principalmente ao meu pai, sobre isso, foi escrevendo o que irão ler abaixo.
Eu tinha 18 anos!
Então, de alguma forma meu pai descobriu o escrito que era uma pretensa canção, rock, é claro! E escreveu um lindo e amoroso poema em resposta, então eu me emocionei e fiz a tréplica.
Reminiscências, como diz meu querido Tio Horácio, mas nostalgia não faz mal a ninguém e também, é bom lembrar meu pai, alías, não se passa um dia sem que eu o lembre e o cite.

E aqui eu registro, eu e meu pai, dialogando em poemas!


Haaa...em tempo, se não fosse minha irmã Isabella, encontrar os papeis no qual eu e meu pai haviamos devidamente datilogafado, e tivesse scanneado, muito provavelmente essas "pérolas" haveriam se perdido.


Escrevi...


PERDIDO DENTRO DE MIM

Quando olho no espelho
Começo a pensar na minha vida
Vejo a cara de garoto que tenho
E tento curar aquela ferida

Penso em tudo que tenho
Dinheiro, carro e vida folgada
Mas a paz, a paz ainda não veio
E eu tenho tudo, e não tenho nada

Porque me castigam tanto
Se eu sei que não sou ruim assim
Pra eles, isso eu canto
Eu sei bem o que quero pra mim

É gozada mesmo a minha vida
Começo a rir da minha cara
Vou dar nisso uma invertida
Vou tomar a minha gata proibida

As pessoas que tanto me rodeiam
Falam tanto de suas experiências
Que me fazem entrar num ruim devaneio
Enquanto me cobram fazendo tantas exigências

Quando irei me sentir útil
Fazendo algo que me realizará
Quando sairei dessa vida fútil
Que por fim me apodrecerá

Alnary Filho
18/09/1985


Meu pai escreveu...


QUARTETOS DO CORAÇÃO
Em resposta ao seu: PERDIDO DENTRO DE MIM


Como li sem permissão o seu rimado
Creio também, dever dar meu recado
Talvez, nem tão lindo e bem feito
Porém, com muito amor e respeito

Olha filho, não desejo mais magoá-lo,
Essa será a última vez que lhe falo:
“as coisas do coração, do amor e da paixão,
muitas vezes, castigam-nos sem dó, nem perdão.”!

Diz parte de um velho ditado que permanece:
“existe razão que a própria razão desconhece”,
O desconhecido, só o futuro revelará,
Quando erramos ou acertamos, que será?

Porém, de tudo esteja certo filho meu,
A certeza que sempre estarei ao lado seu,
Na matéria fria, ou em meu espírito
Junto estarei, aqui ou até do infinito!


De um pai desesperado
Que sempre o amou!

Ponta Grossa, 18 de Setembro de 1985

Alnary Nunes Rocha


Eu repliquei...


REDIMIDO

Só depois que tudo passou
Eu posso ver o meu passado
Um rolo que ninguém nunca imaginou
Mas que me deixou muito magoado

Eu sei que só eu tenho culpa
Mas eu não tinha cabeça
É, eu tenho que ir a luta
Antes que minha memória desapareça

Não queria que tivesse de ser assim
Mas a verdade tenho de assumir
Realmente não sei o que vai ser de mim
Não sei como, mas vou me redimir

Não que eu deva algo pra alguém
Mas a vida é uma armadilha
É impossível viver sem ninguém
É que eu tenho uma família

E ser legal não custa nada
Como eu devo algo pra mim
Agora é hora da virada
Vou conseguir viver assim

Alnary Rocha
18/09/1985